Nikos Elefthérios

Treinando a periodicidade

In Uncategorized on 02/07/2009 at 6:59 pm

Queiram me desculpar, porém temo que os primeiros posts não serão assim tão incríveis, pois tenho que  me acostumar com uma postagem regular, então posso usar algum material antigo, como esta crítica do filme Drácula de Bram Stoker.

Escrita como nota única para a matéria de Seminários Temáticos III – Crítica de Cinema, ministrada pela professora Maíra Ezequiel. Penso eu que deve ter ficado no mínimo boa, pois o texto me valeu uma média final de nove na matéria.

Drácula de Bram Stoker é um dos melhores filmes que já tive o prazer de assistir, sombrio, perturbador, estranho, irreal. Contudo sem deixar de ser terno, romântico, aventuresco, emocionante.

Eu adoro este tipo de dicotomia e a forma como elas são ligadas de forma magistral, sem destruir a narrativa, mas ao contrário, tornando-a mais interessante e fantástica.

Abaixo segue o texto revisado (quem sabe assim eu tinha tirado dez?).

P.S.: Desculpem se ficou um pouco grande, mas era a nota final, então eu caprichei.

Uma crítica sobre Drácula de Bram Stoker

Adaptações existem já a muito na história do cinema. Muitas foram boas adaptações, fazendo jus à obra na qual foram inspiradas, outras conseguiram igualar a qualidade original, tornando-se grandes filmes e clássicos, a maior parte, infelizmente, simplesmente chegava ao cúmulo de destruir a obra primeva, manchando esta origem para quem não chegou a conhecê-las.

Incrivelmente, ao assistir Drácula de Francis Ford Coppola, algo diferente e inesperado ocorreu: esta adaptação da histórica e clássica obra de Bram Stoker simplesmente superou suas origens, transformando uma bela história de amor que supera as eras em uma bela história de amor que supera as eras, mas regadas de erotismo, lírica violência e monstruosidade e um goticismo díspar e perturbador.

Para começo de conversa, o que mais marca é a diferença gritante no modo de ver os personagens. No livro de Bram Stoker, escrito na época romântica da literatura européia, os personagens são preto no branco. Como assim? Os heróis são sempre bonitos (mesmo depois de sofrer indizíveis horrores e traumas ou da idade, sempre tem beleza neles), valentes, inteligentes e incorruptíveis, sem falar em cavalheiros quase de estirpe nobre (mesmo quando são de origem mais humilde). Os vilões são podres, terríveis, sua maldade é a única característica que os define, todo o resto é esquecido quase que completamente.

Já no filme homônimo, os personagens são todos pincelados em desconcertantes tons de cinza, cada um com características boas e ruins. Alguns não possuem tino social, outros são arrogantes, outros lascivos e quase todos têm um pequeno quê de loucura, para poder caber neste trabalho de um ar bastante estranho e conturbado.

A maior mudança percebida é a do próprio Conde Drácula. Ao invés de ser um monstro que vendeu sua alma por um misto de ódio e amor para se tornar um monstro maior ainda, algo que mora nas trevas e só possui pensamentos mesquinhos e maus da pior extirpe possível, um ser que rejeita a luz, pois se rendeu completamente às trevas, ele torna-se algo mais complexo. Sim, o Conde desistiu da luz, mas não por mesquinhez, não por maldade. Por amor ele decide enfrentar a tudo e a todos, todo o bem no mundo, apenas para atravessar o tempo esperando seu amor retornar a este mundo.

Retomando aqui o assunto do mundo, que fantástico o mundo em que o filme se passa. É ainda a mesma Inglaterra Vitoriana da história dos homens, mas não é a mesma também. Esta é mais suja, mais estranha, mais estilizada, mais gótica, mais sensual, escura e perturbadora. Mesmo durante o dia a cidade é como foi acima dito, passando tudo o que vivia o mundo naquele tempo, o sentimento inglês do povo com sua época. O que mostra algo interessante no filme.

Já o cenário parece mostrar os sentimentos dos personagens e o que está ocorrendo com eles. Como exemplo temos o jardim da casa de Lucy (Sadie Frost), amiga de Mina Harker (a mocinha sem-graça feita por Winona Ryder e que é alvo de Vlad Tepes). Quando logo nas primeiras partes do filme ela visita a amiga para falar-lhe sobre seu imenso amor por seu futuro marido Jonathan Harker (o sempre robótico Keanu Reeves) o jardim é belíssimo, florido e colorido, quase se pode ver as abelhinhas e lindos pássaros a esvoaçar. Mais tarde, quando Drácula, na forma de um imenso meio-lobo aparece para seduzir e desvirtuar a já mentalmente desvirtuada Lucy, mesmo estando à noite, o jardim está feio, as flores escuras, as estátuas antes bonitas agora assustadoras, ratos e aranhas estão por toda parte, grandes teias estão espalhadas ao redor, instrumentos de jardinagem sujos servem de esconderijo para o monstro.

Outra cena que mostra isso com primazia é a primeira, que mostra Vlad Tepes ainda como um ser humano, um guerreiro da Igreja, que mesmo assim não é nem um pouco cristão com seus inimigos, certamente não lhes mostrando a outra face (apenas a da espada). Enquanto a batalha ocorre, apenas as sombras dos guerreiros são vistas, em um cenário em tons de vermelho e amarelo, que simplesmente parecem fazer saltar na tela a expressão “no calor da batalha”.

O que mais impressiona no filme são também os efeitos especiais. Mesmo tendo sido lançado apenas um ano antes de Jurassic Park (com a mais real animação 3D da história do cinema), o filme possui efeitos arcaicos, simples, mas trabalhados de maneira esplendorosa. Várias cenas do filme possuem uma ligação quase imediata uma com a outra, ligação essa feita através de simples montagens ou sobreposição de imagens, como no restaurante (onde Mina e Vlad têm um romântico e quente jantar) ou na viagem de barco (quando Drácula decide finalmente ir atrás de sua amada em Londres.

Esses efeitos simples parecem ter sido colocados lá para chegar o mais perto possível das capacidades da época (até mesmo uma homenagem ao cinematógrafo, ancestral do cinema, aparece no filme) e também para mostrar mais ou menos como as pessoas viam o sobrenatural, não como algo tão real e perfeito que parece fazer parte de nosso mundo, mas sim algo errado e distorcido, algo que não deveria estar lá e funciona diferente das nossas leis.

Sobre o figurino, posso apenas falar que é bem diferente do puritano estilo conhecido da Era Vitoriana. As roupas possuem decotes impossíveis para a época, cores por demais exóticas e os óculos escuros do rejuvenescido Drácula foram moda graças ao John Lennon de nossos tempos.

No âmbito das atuações, a maior parte dos atores representou bem suas personagens, sendo fiéis ao livro e às mudanças já comentadas anteriormente. Winona Ryder faz uma mocinha comum e apaixonada, que mais tarde é seduzida pela poderosa e irreal personalidade de Drácula e se solta um pouco mais. Keanu Reeves é um rapaz direito e trabalhador, que foi pego no meio da bagunça e é o marido traído mais manso da história do cinema. Sadie Frost fez bem a Lucy taradinha do começo e depois a vampiricamente lasciva do final. Seus três pretendentes também fizeram de forma aceitável seu papel, como o rico arrogante, o americano rude e o tímido médico atrapalhado.

As atuações anteriores são aquelas que ficaram na média, não surpreenderam, mas supriram as necessidades do filme. Falando agora daquelas que realmente se sobressaíram, comecemos pelo trágico lunático servo de Drácula, o homem que antecedeu Harker na venda de Essex. Tom Waits fez um Renfield realmente perturbado e perturbador, sua loucura e suas crenças emanam de seu ser naquela pequena cela de manicômio, principalmente quando ele fala sobre obter a essência de vida dos animais ao comê-los. Logo depois temos o Van Hellsing de Anthony Hopkins, que mesmo aparecendo pouco, ficou muito bom com seus pequenos e rápidos acessos de loucura, ou com sua falta de tato ao tratar da morte de Lucy e sua necessária decapitação.

Porém, em se falando de atuação, apenas uma sustentaria todo o filme. Gary Oldman provavelmente está entre os três ou cinco melhores dráculas da historia dos filmes sobre o conde (que superam a margem dos 160). Seja no começo, como um velho decrépito e asqueroso, que deixou todo o terror e sofrimento dos anos aparentes em sua pele acinzentada e grotesca, seja quando ele aparece rejuvenescido em Londres, como um nobre senhor de terras da distante e exótica Transilvânia. Sua melhor cena, porém, ocorre já com a enfeitiçada Mina Harker, quando ele invade o quarto do manicômio em que ela está escondida. Ele aparece lá como uma névoa esverdeada (um dos melhores feitos técnicos do filme, a névoa aparenta peso e têm uma consistência gosmenta) e, entrando por debaixo de seus cobertores, emerge como o jovem e sedutor lorde. É incrível como Oldman consegue passar todo o amor e sofrimento do conde, mas sem esquecer sua presença assombrada e perigosa.

Por essas e por muitas outras, Drácula, dirigido por Francis Ford Coppola, adaptado da obra original de Bram Stoker está entre os clássicos modernos do cinema, um filme não de terror, pois quebra com todas as fórmulas deste, mas sim como um filme de romance e de horror, mostrando o terrível laço que pode uni-los.

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